Rodrigo Raineri fala sobre o prazer de vencer o medo

"O ambiente natural é onde gosto de estar, são lugares nos quais nos colocamos a prova"

 Para muitos, o medo inibe. Para Rodrigo Raineri, sugere um desafio que resultará em prazer ao ser superado. O mais recente foi guiar o projeto Sete Cumes, que abrange as sete mais altas montanhas de cada continente, e se tornar o primeiro brasileiro a cumpri-lo. A paixão pelo esporte começou em 1988, no dia 7 de setembro, quando o alpinista radicado em Campinas foi para o Parque Nacional do Itatiaia e venceu o Pico das Agulhas Negras. “Foi incrível, uma descoberta, e não parei mais de escalar”, conta.

Na época estudante de engenharia da computação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Raineri foi então estagiar na França e conheceu a Escola de Guias de Chamonix, universidade voltada para guias de montanha. Voltou de lá arrebatado pela modalidade. “Na França, guia é uma profissão regulamentada. Vi como eram os esportes outdoor, como era profissional o negócio. Voltei ao Brasil e me formei, mas já tinha em mente abrir uma empresa e ser guia de montanha. No último ano de Unicamp, abri um CNPJ na garagem de casa. Quando finalizei o curso, dei início à empresa numa portinha em Barão Geraldo”, revela.
No início, sofreu um pouco de resistência da família, principalmente pelo aspecto financeiro – segundo ele, em um dia guiando um grupo de montanha ganhava menos do que em uma hora de personal trainer numa boa academia de Campinas. Determinado, Raineri superou mais essa e os desafios passaram a ser unicamente as montanhas.
Metrópole – Como se sente no posto de único brasileiro a guiar o projeto Sete Cumes?
Rodrigo Raineri – Extremamente feliz e realizado. O pioneirismo é uma coisa incrível e me mostrou que seria difícil, mas que há um lado bom: o reconhecimento, a alegria de abrir a cabeça das pessoas e desbravar novos mercados. O pessoal que trabalha comigo na Grade 6 (empresa de palestras e treinamentos corporativos) pode conhecer o mercado do turismo de aventura e escalada. Na Olimpíada de 2020, em Tóquio, a escalada será um esporte de demonstração e também por isso me sinto feliz e realizado.
É muito diferente escalar sozinho e como guia?
Escalar guiando é bem diferente de escalar sozinho porque, além de cuidar de si, é preciso cuidar do grupo, analisar as pessoas e seus ritmos. Quando você está sozinho, tem seu objetivo, sabe como se sente, avalia as condições climáticas e a neve, faz uma análise mais completa de tudo. Quando está em grupo, não sabe se tem alguém forçando mais do que deve, com muito frio nas extremidades, se dormiu bem. São análises que fazemos como um médico ao paciente, sem sentir o que ele está sentindo. No momento de ataque ao cume, essa avaliação fica ainda mais complicada porque a temperatura é baixa demais, com fortes ventos na madrugada e não conseguimos ver direito a fisionomia das pessoas de tanta roupa que usamos para nos proteger. Trabalhar guiando expedições é um esforço extremamente maior do que escalar a mesma rota sozinho.
Como se preparou para a jornada?
Meu preparo físico, técnico e mental é constante, porque quando fico um tempo sem ir às montanhas começo a ficar incomodado. O ambiente natural é onde gosto de estar, são lugares nos quais nos colocamos a prova. O preparo tem que ser diário, mas às vezes não consigo fazer o que gostaria por compromissos de trabalho. Minha busca constante é estar feliz e bem física, técnica e psicologicamente. Foram anos de experiência com outras escaladas até o momento em que me senti apto a guiar uma expedição na Antártica, na qual todos os clientes chegaram ao cume, sem guias locais ou outro grupo para seguir. Foram experiências ricas e fortes, para as quais eu tinha de estar muito seguro do que estava fazendo.
Qual foi o maior desafio?
Foram vários. A remota Pirâmide Carstensz, na Indonésia, foi um desafio bem grande, pois são seis dias de caminhada no meio da selva, com apoio de uma tribo indígena local. Na região existem tribos canibais que não falam nossa língua, por isso a comunicação foi por gestos, e isso também é perigoso, porque um gesto pode ter significados diferentes em um lugar e outro. Até então, apenas dois brasileiros tinham chegado ao cume, mas dessa vez chegamos em nove. No Vinson (Antártica), no dia do ataque ao cume fazia 29 graus negativos e ventos de 50km/h, condições extremas, mas todos os clientes chegaram. No Everest, uma expedição longa e que exige preparo mental gigantesco, com desgaste físico enorme, não houve dificuldade maior. O conjunto da obra é que traz sua beleza.
Você pensou em desistir em algum momento?
Sim, já pensei em deixar a profissão de guia de montanha e até em parar de escalar num momento muito triste da minha vida, em 2006, quando perdi meu amigo e parceiro Vitor Negrete no Everest. Tive um grande sentimento de culpa e passou pela cabeça mudar totalmente meu estilo de vida.
Por que o Sete Cumes é especial? Qual dos setes pontos lhe deu mais emoção?
O projeto é especial porque abrange todos os continentes. Foram experiências incríveis, não apenas pelas expedições, mas pelos conhecimentos de cultura, geografia, fauna e flora. Conhecer o mundo abre nossa visão para as diferenças, e essa é uma das grandes belezas do Sete Cumes. A montanha que mais frequentei e que me ensinou muito, principalmente no início da carreira, foi o Aconcágua, na Argentina, mas fiz cinco expedições ao Everest. Na primeira, voltei a menos de 50 metros do cume; na segunda, perdi o Vitor. Em 2008, conquistei o cume, o que foi como fazer as pazes com a montanha, com minha profissão e meus sonhos. Em 2011 e 2013, cheguei novamente ao cume. Foram experiências notáveis e únicas e viveria tudo novamente se preciso.
A sensação de medo lhe dá prazer?
O medo me dá medo, superá-lo me dá prazer. Ter coragem para fazer algo que está no seu limite, que não tem certeza se conseguirá, que demandará energia, raciocínio lógico, sangue frio e tomadas de decisão corretas, quando consegue é uma sensação incrível de empoderamento, de ser abençoado, uma sensação de que vale a pena. É uma sensação de que posso, de que corro atrás e de que minha vida depende, principalmente, de mim. Superar o medo é uma sensação incrível e ter a coragem para realizar aquilo que tem vontade é muito bacana.
E agora, qual o próximo desafio?
Estou me perguntando isso também. Tem uma série de coisas que eu gostaria de fazer, projetos inusitados que dependem de vários fatores, como meu condicionamento físico e minha saúde. Ter carregado a tocha olímpica foi bacana e ter concluído o Sete Cumes como guia, incrível. Tenho feito palestras e eventos e analisado ideias para ver qual caminho seguir. Gosto de inovar, de tentar implementar projetos complicados. Vejo caminhos bonitos e com muito pôr do sol pela frente.
Sete Cumes
O projeto Sete Cumes envolve o Monte Everest (8.848 metros), entre Nepal e Tibet; o Aconcágua (6.962 metros), na Argentina; o Denali (6.194 metros), no Alasca; o Kilimanjaro (5.895 metros), na Tanzânia; o Maciço Vinson (4.892 metros), na Antártica; a Pirâmide Carstensz (4.884 metros), na Austrália; e o Monte Elbrus (5.642 metros), na Rússia.
http://correio.rac.com.br/_conteudo/2016/09/metropole/448133-rodrigo-raineri-fala-sobre-o-prazer-de-vencer-o-medo.html
Escrito por: Marita Siqueira
 
Fonte: CORREIO POPULAR
(10/09/2016)
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